Para surpresa de muitos, choque e tristeza de outros tantos, temos observado no Brasil, de uma década para cá, um fenômeno, embora limitado do ponto de vista quantitativo, mas expressivo, pelo aspecto qualitativo, da abjuração das convicções espirituais, doutrinárias e éticas de alguns líderes de inegável passado de militância no evangelicalismo, “virando-a-casaca” para diversos estágios do Liberalismo Pós-Moderno, ou Revisionismo. Não se tornaram ateus, agnósticos, materialistas, politeístas ou isotéricos (embora haja, aqui e ali, algumas pitadas), mas é como se a experiência central de novo nascimento que foi um dia celebrada perdesse o seu significado, como a autoridade das Sagradas Escrituras se tornasse debilitada, como se a crença na pecaminosidade universal, na singularidade de Jesus Cristo, na necessidade de conversão, no imperativo missionário, na afirmação de valores absolutos, os Credos, as Confissões Reformadas, a santidade como alvo existencial, viessem a ruir. Do velho liberalismo (moderno) herdam o universalismo salvífico, o racionalismo na leitura da Bíblia e a ausência de absolutos morais, da Pós-Modernidade adotam o individualismo, o subjetivismo e o relativismo (como únicos “absolutos”). Eles se tornam não só ex-evangélicos, mas anti-evangélicos.

Eles estão no controle de algumas denominações, ou de seminários e departamentos onde não controlam o topo da instituição, mas travam uma batalha política e ideológica, uma guerra de posições. Escrevem, mobilizam, propõem, se articulam, e, acima de tudo, perseguem os oponentes com um zelo fundamentalista com sinais trocados, crendo que a destruição dos teologicamente conservadores é um serviço prestado para a gênese de uma nova civilização fraterna e justa, assentada sobre a dúvida e não sobre a verdade. Vejo, entre eles – sejam anglicanos, luteranos, metodistas, presbiterianos, batistas ou outros – uma pluralidade de causas desse “caminho de Damasco em marcha ré”.

Alguns necessitavam eliminar a crença na revelação, os valores revelados, e a compreensão histórica da Igreja a respeito desses valores, pois tinham sucumbido à tentação da carne e queriam “soltar as frangas”: homossexuais, bissexuais, heterossexuais fornicários, trambiqueiros. Nem sempre essa necessidade de aliviar a consciência passa pela sexualidade, pois em um caso o pastor estava envolvido com a elaboração de concursos fraudulentos em prefeituras do interior, e levando vantagens financeiras com isso. Se alguns valores não são absolutos, a consciência é aliviada, e se faz uma “releitura”crítica da Teologia Moral.

Outros necessitavam de aprovação, de aceitação, de respeitabilidade intelectual pelo século, seja pela academia ou pelo mundo das artes, das letras e das ciências. Toda sorte do que se considera como “atraso” ou “obscurantismo” deve ser abandonado, denunciado e combatido, em um reavivamento do velho racionalismo, filho do Iluminismo. Não se trata tanto de dúvidas sinceras e um honesto questionamento intelectual, mas de racionalizações de quem quer ser aprovado por grupos, e aos mesmos se integrar como projetos de vida. Entra aí, obviamente, questões de caráter e vaidade intelectual.

Alguns são apenas carreiristas religiosos, profissionais da religião, caçadores de viagens, bolsas ou cargos remunerados em instituições denominacionais ou não-denominacionais dominadas pela teologia liberal pós-moderna, revisionista, e a“colocação” está garantida para quem mudar de lado e de discurso. Com isso o“meio de vida” (o “leite das crianças”) está garantido até a aposentadoria, mesmo que se tenha de negar a cruz e negociar com satanás.

Alguns estão passando por problemas graves envolvendo familiares, e gostariam de um Deus sem ira, um homem sem pecado e um Cristo sem cruz, um caminho elástico para a eternidade, que pudesse incluir esses pecadores domésticos e amados.

A realidade é que os livros estão aí, os artigos estão aí, as aulas estão aí, a tomada dos cargos está aí, os “testemunhos” de desenvangelicalização estão aí, lentamente crescentes, crescentemente preocupantes e impactantes, fazendo sofrer, abalando vidas, escandalizando.

Nosso Protestantismo de Missão construiu o seu primeiro meio século antes das controvérsias teológicas polarizantes. Fomos tardiamente (embora fortemente, em alguns setores) atingidos pelo (neo)fundamentalismo sectário, moralismo e antiintelectual. Por muito tempo ficamos quase imunes dos ataques do velho liberalismo (moderno). Agora, diante da nossa inserção no Ocidente, com o agressivo Secularismo de fora e o não menos agressivo Revisionismo de dentro, já temos motivos de preocupação, de reafirmação e de disposição de luta pela verdade, pagando um preço.

O estrago já adentrou muitas portas, com seu bafo de morte.

A abjuração desses nossos ex-líderes é por todo lamentável.

Oremos para que suas casacas sejam reviradas ao vestir original, pelo poder do Espírito Santo.

A admiração pelo seu passado, ou o sentimentalismo latino, contudo, não nos deve calar, consentir ou baixar a guarda.

Paripueira (AL), 17 de fevereiro de 2012,
Anno Domini.
+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano